Curso de Inglês no Setor Público
Panorama nacional · Compras públicas de ensino de idiomas LGC Licitações · 03 set 2026

O governo brasileiro gastou R$ 98,7 milhões ensinando inglês

Cento e sessenta e seis contratos assinados desde 2022, com 98 empresas e 113 órgãos compradores. Metade do dinheiro saiu por inexigibilidade — sem disputa. Este é o mapa completo de quem vende, quem compra e por qual porta.

R$ 98,7 micontratado com pessoa jurídica
166contratos publicados no PNCP
98empresas com contrato assinado
113órgãos compradores distintos
50,2%do valor por inexigibilidade
Resposta direta

Quem está vendendo mais

O líder é o Conselho Cultural Thomas Jefferson, com 14 contratos e R$ 15,2 milhões — e ele não venceu isso em pregão. Doze órgãos federais o contrataram diretamente, por inexigibilidade, incluindo a Presidência da República, o FNDE e o Ministério do Meio Ambiente.

Logo atrás vem um perfil bem diferente: a Futura Soluções Educacionais fez R$ 13 milhões em apenas três contratos, vendendo licença de plataforma digital — um deles, de R$ 11,5 milhões, para a Secretaria de Educação do Paraná, por pregão eletrônico. São dois modelos de negócio disputando o mesmo orçamento.

Dez maiores fornecedores por valor contratado

Soma dos contratos assinados e publicados no PNCP entre 2022 e agosto de 2026.

Cor indica o tipo de oferta predominante da empresa: curso presencial ou online, plataforma digital, ou intercâmbio.
Ranking completo dos 15 maiores. "Escopo" indica se o contrato é exclusivo de inglês ou combinado com outros idiomas e disciplinas.
#EmpresaCNPJContratosValorShareÓrgãosUFOfertaEscopo
1Conselho Cultural Thomas Jefferson00.114.090/0001-4114R$ 15.222.89915,4%12DFcursoinglês
2Futura Soluções Educacionais25.258.056/0001-713R$ 12.991.33713,2%2CE, PRplataformainglês
3Ramos Brasil Distribuidora40.668.817/0001-571R$ 9.043.1699,2%1BAplataformacombinado
4EF Educação Especializada e Viagens ao Exterior19.609.588/0001-033R$ 7.067.1067,2%2DF, RJplataformacombinado
5Greenlife Solutions10.710.104/0001-431R$ 5.922.0006,0%1MAcursocombinado
6Victori Produções19.648.207/0001-031R$ 5.885.0006,0%1MGcursoinglês
7Cetrede — Centro de Treinamento e Desenvolvimento07.875.818/0001-051R$ 4.466.9284,5%1CEcursocombinado
8Cultura Inglesa Idiomas S.A.17.855.050/0001-531R$ 4.195.0234,3%1DFcursoinglês
9Via Mundo Intercâmbio e Turismo03.088.638/0001-141R$ 3.073.0003,1%1PEintercâmbiocombinado
10Instituto Cultural Brasil Estados Unidos04.394.169/0001-241R$ 3.000.0003,0%1AMcursoinglês
11Finatec — Fund. de Empreendimentos Científicos37.116.704/0001-342R$ 2.925.7673,0%1DFcursocombinado
12Associação Cultural Brasil Estados Unidos15.179.690/0001-652R$ 2.668.5282,7%1BAcursoinglês
13Patrícia da Cunha Batista32.632.232/0001-593R$ 1.975.7602,0%3MG, SCcursoinglês
14GoFluent Brasil Sistemas de Ensino22.862.280/0001-806R$ 1.768.2761,8%5DFplataformacombinado
15Griffe Viagens e Turismo96.766.555/0001-181R$ 1.412.0001,4%1PEintercâmbioinglês
Quem tem mais capilaridade, não mais dinheiro

Por número de contratos o quadro muda. O Thomas Jefferson segue líder com 14, mas aparecem nomes que faturam pouco e vendem muito: Cultura Ensino de Idiomas (7 contratos, R$ 480 mil), GoFluent (6 contratos em 5 órgãos diferentes) e o Senac do Rio Grande do Norte (5 contratos). São operações de ticket baixo e repetição alta — o oposto do modelo de contrato único milionário.

Por qual porta o dinheiro sai

Metade do mercado não passa por disputa

Você pediu o corte por dispensa, licitação e inexigibilidade. Ele é a informação mais acionável deste relatório: a inexigibilidade responde por 50,2% do valor e por 92 dos 166 contratos. Somada à dispensa e ao credenciamento, a contratação direta chega a 69,6% do dinheiro.

Faz sentido jurídico. Curso de idioma costuma ser enquadrado como serviço de notória especialização ou como capacitação de servidor, hipóteses que a Lei 14.133 admite contratar sem licitação. Na prática, isso significa que quem espera o edital sair perde dois terços do mercado.

Valor contratado por modalidade

Distribuição dos R$ 98,7 milhões entre as formas de contratação.

Inexigibilidade, dispensa e credenciamento somam 69,6% do valor — contratação direta, sem certame competitivo.
Estrutura do mercado

Cinco contratos valem mais que os outros cento e sessenta e um

O mercado é um haltere. De um lado, 110 contratos de até R$ 200 mil que somam 5,6% do valor. Do outro, cinco contratos acima de R$ 5 milhões que somam 38,8%. A mediana é de R$ 63,6 mil; a média, de R$ 594 mil — quase dez vezes mais.

Isso define duas estratégias comerciais incompatíveis. Quem quer volume vive dos contratos pequenos e recorrentes de capacitação de servidor. Quem quer faturamento persegue a licença de plataforma para rede pública de ensino, onde cada contrato pode valer oito dígitos.

Contratos e valor por faixa de preço

Quantidade de contratos contra participação no valor total, por faixa.

38,6% dos contratos ficam abaixo de R$ 50 mil e respondem por 1,5% do valor.
Evolução

O mercado dobrou em 2024 e se manteve

De R$ 10,9 milhões em 2023 para R$ 33,1 milhões em 2024 — um salto de três vezes, sustentado em 2025 com R$ 34,3 milhões. 2026 já acumula R$ 20,4 milhões em 45 contratos com oito meses corridos, ritmo compatível com os dois anos anteriores.

Vale a ressalva: o PNCP só se tornou obrigatório para todos os entes de forma plena a partir de 2023, então parte do salto de 2024 reflete melhoria de cobertura da base, não apenas crescimento real de demanda.

Valor contratado por ano de assinatura

2026 encerrado em agosto — o ano está incompleto.

Contagem de contratos acima de cada barra. O total de 2022 (R$ 53 mil, 1 contrato) é resíduo do início da base.
Geografia e comprador

Brasília concentra um terço de tudo

O Distrito Federal responde por R$ 33,7 milhões (34,1%) em 42 contratos — é a capacitação de servidor federal puxando o mercado. Depois vêm Paraná (R$ 12,5 mi, quase todo em um contrato de plataforma), Bahia (R$ 12,0 mi), Minas Gerais (R$ 9,9 mi) e Ceará (R$ 6,9 mi).

São Paulo é o contraste revelador: 29 contratos — o segundo maior número do país — mas apenas R$ 2,1 milhões. Muita compra pequena, nenhum contrato grande. É mercado pulverizado, de inscrição individual e turma pequena.

Por esfera, o equilíbrio é notável: federal com R$ 35,6 mi, municipal com R$ 34,6 mi e estadual com R$ 20,6 mi. Mas o perfil de compra é oposto — o federal compra capacitação de servidor, o municipal e o estadual compram ensino de idioma para aluno da rede pública.

Órgãos com maior valor contratado no período.
ÓrgãoUFContratosValorPerfil de compra
Secretaria de Estado da Educação e do EsportePR1R$ 11.475.114Plataforma para rede estadual
Município de Livramento de Nossa SenhoraBA1R$ 9.043.169Sistema estruturado de ensino
Consórcio Interfederativo Minas Gerais — CIMINASMG2R$ 7.685.000Credenciamento para municípios
Agência Nacional de Aviação Civil — ANACDF1R$ 5.975.211Idiomas para servidores
Município de Presidente DutraMA1R$ 5.922.000Capacitação de alunos e professores
Presidência da RepúblicaDF1R$ 4.760.107Curso de inglês para servidores
Secretaria de Educação e EsportesPE4R$ 4.600.669Intercâmbio para professores
Câmara Municipal de FortalezaCE1R$ 4.466.928Pacote de capacitação combinado
Advocacia-Geral da UniãoDF2R$ 4.251.480Inglês in company
Ministério da FazendaDF3R$ 3.299.258Capacitação de servidores
Segmentos

Curso presencial ainda domina, mas plataforma cresce por contrato grande

Curso — 139 contratos, R$ 61,6 milhões (62,4%). Ticket médio de R$ 443 mil. É o segmento de relacionamento: aula presencial ou online ao vivo, turma fechada, in company para servidor.

Plataforma — 25 contratos, R$ 32,6 milhões (33,0%). Ticket médio de R$ 1,30 milhão, três vezes o do curso. Menos contratos, muito mais dinheiro em cada um, e é por pregão eletrônico que eles saem.

Intercâmbio — 2 contratos, R$ 4,5 milhões (4,5%). Nicho concentrado num único comprador: a Secretaria de Educação de Pernambuco, que enviou professores da rede a Canadá, Chile, Inglaterra e Argentina.

Os institutos binacionais são a força invisível do mercado

Thomas Jefferson (DF), Instituto Cultural Brasil Estados Unidos (AM) e Associação Cultural Brasil Estados Unidos (BA) somam R$ 20,9 milhões, 21,2% do mercado. São entidades sem fins lucrativos, com décadas de existência e reconhecimento institucional — exatamente o que sustenta um enquadramento de notória especialização em inexigibilidade.

Para uma escola de idiomas comercial, esse é o concorrente mais difícil de deslocar: não se ganha dele por preço, porque não há certame onde competir.

Situação agora

Nenhum edital de curso de inglês está aberto neste momento

Varri o PNCP por editais com proposta em aberto usando os mesmos termos. Dos 16 resultados brutos, nenhum é compra de curso de inglês — são contratação de professor, aquisição de livro, tradução, oficinas socioeducativas e itens sem relação alguma.

Uma única oportunidade merece atenção, em Minas Gerais: um credenciamento aberto para instrutoria de língua inglesa. Credenciamento não tem data única de disputa — fica aberto para adesão de interessados que cumpram os requisitos, o que o torna acionável a qualquer momento.

A leitura correta desse vazio não é "não há mercado". É que este mercado não se acessa por edital aberto: 69,6% dele sai por contratação direta, que nunca aparece numa busca de proposta em aberto. Monitorar edital é a forma menos eficaz de atacar esse segmento.

Leitura comercial

O que estes dados recomendam

Metodologia

Como esta pesquisa foi feita

Consulta direta às APIs públicas do Portal Nacional de Contratações Públicas em 03/09/2026. Todo valor e todo CNPJ deste relatório vem de registro publicado no PNCP e é verificável na fonte.

Procedimento e números da varredura
  • Coleta: 20 formulações de busca em frase exata — curso de inglês, curso de idiomas, língua inglesa, aulas de inglês, plataforma de ensino de idiomas, inglês instrumental, proficiência, TOEFL, entre outras — aplicadas a editais e a contratos. Resultado bruto: 1.593 registros únicos.
  • Triagem: 462 registros aprovados, 1.131 descartados. Os maiores grupos de descarte foram ausência de sinal de curso (741), compra de livro didático (145), serviço de tradução ou interpretação (131) e compra de material ou mobiliário (80).
  • Detalhamento: os 190 contratos aprovados foram consultados individualmente no endpoint de contratos para obter CNPJ, razão social, tipo de pessoa e valor global. Zero falhas de consulta.
  • Base de análise: os 166 contratos com fornecedor pessoa jurídica. Foram separados 21 contratos de pessoa física (R$ 137,5 mil), que representam contratação de professor autônomo e não venda empresarial.
  • Escopo: cada contrato foi marcado como exclusivo de inglês (131 contratos, R$ 60,9 mi) ou combinado com outros idiomas e disciplinas (35 contratos, R$ 37,7 mi), para que o leitor saiba onde o valor não é integralmente atribuível a inglês.
Limites conhecidos
  • A busca opera sobre o texto do objeto. Curso de inglês contratado dentro de um lote genérico de capacitação, sem menção ao idioma no objeto, não é alcançado e não entra na contagem.
  • Os quatro maiores contratos combinados incluem outras disciplinas ou idiomas. O valor real atribuível a inglês nesses casos é menor que o publicado, e o PNCP não permite separá-lo item a item.
  • A obrigatoriedade plena de publicação no PNCP é recente. Contratos anteriores a 2023, ou registrados apenas em portais próprios de estados e municípios, estão sub-representados.
  • 2026 cobre apenas até agosto.

O efeito líquido dos três primeiros limites aponta na mesma direção: o mercado real é maior que os R$ 98,7 milhões apurados.